Informe anual 2009 da Anistia Internacional – Brasil

Texto publicado no Informe anual 2009 da Anistia Internacional


Violência e despejos forçados nas áreas rurais


A violência contra trabalhadores sem terras prosseguiu, sendo geralmente praticada por empresas de segurança privadas irregulares ou insuficientemente regularizadas, contratadas por proprietários de terras ou por milícias ilegais. Prosseguiram os despejos forçados, em muitos casos em total desconsideração aos devidos procedimentos legais. Houve tentativas de criminalizar os movimentos que apoiam as pessoas sem terra em sua luta para proteger a terra e para assegurar a reforma agrária.

No estado do Rio Grande do Sul, promotores e policiais militares montaram um dossiê com diversas alegações contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Isso foi considerado pelo movimento como uma tentativa de restringir suas atividades e de criminalizar seus membros. O dossiê, que incluia alegações de que o MST teria ligações com grupos terroristas internacionais, foi utilizado para dar sustentação a ordens judiciais de despejo, muitas das quais foram executadas com excesso de força pela polícia.

Leia a íntegra do capítulo sobre o Brasil do Informe Anual 2009 da Anistia Internacional aqui.

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Condições para a criação de um Estado Palestino

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A USP sitiada: a coragem dos estudantes e a covardia da PM

Texto de Deisy Ventura
pescado do Blog do PPG Direito

A USP sitiada: a coragem dos estudantes e a covardia da PM

É de estarrecer o fato de que parece comum a uma boa parte das (in)consciências hipócritas do nosso país que a Polícia Militar saia pelas ruas escorraçando e reprimindo as manifestações legítimas da sociedade civil organizada. Pra variar, no seio dessa nossa classe média entorpecida pela corrida interminável às prateleiras da sociedade de consumo, aqueles que corajosamente abrem o peito e desafiam a brutalidade das autoridades instituídas são os estudantes. Muitos dirão que eles assim o fazem porque são ingênuos, porque ainda têm muito o que aprender,etc. Mas a verdade é que eles ostentam o sonho que uma vez deu luminoso sentido às vidas de muitos adultos, velhos e até jovens que já estão mortos e não sabem.

O que aconteceu no dia 09/06 (ontem) na USP foi um pouco mais do mesmo do que ocorre costumeiramente nas ações contra movimentos sociais no Brasil, é parte do hábito de criminalizar os movimentos que denunciam as injustiças sociais, afinal é mais fácil criminalizar do que aceitar a responsabilidade pelos graves problemas sociais que enfrentamos. O padrão é sempre o mesmo: a polícia (geralmente apoiada pela mídia) afirma que foi atacada (oh! pobrezinha…tão desprotegida….) e por isto reage atirando balas de borracha, gás lacrimogênico, bombas de efeito moral, cassetadas, bordoadas, e, no caso de trabalhadores pobres (como os lavradores de Eldorado dos Carajás) ou dos próprios estudantes na época da ditadura, balas de verdade mesmo. Tudo isto ocorrido no ano que faz 40 anos da edição do Decreto 477, o AI-5 dos estudantes. Depois vão dizer que a memória não é importante…

Não podemos esquecer também que não é só porque essa violência policial aconteceu em um campus universitário que ela se torna inadmissível. A barbárie e a desumanidade tem que ser repudiada em qualquer campo ou lugar, seja ele a universidade, a favela ou o presídio.

Este é o saldo da nossa violência institucional mal resolvida. Esses soldados foram treinados para agir assim: com truculência e certos de que não serão punidos por isto. Ao invés, o medo da punição vem do não cumprimento da ordem vil, já que a hierarquia militar é implacável.

Sobre o episódio da USP, reproduzo abaixo texto publicado pela saudosa Profa. Deisy Ventura (te cuida por aí Deisy!)  no seu Blog “Direito e Arte” (http://direitoearte.blog.lemonde.fr/). Abaixo do texto da Deisy, estão os links para textos e fotos sobre o episódio. Veja também relato do Prof. Dr. Pablo Ortellado, escrito enquanto a polícia descia o braço nos manifestantes (ZK, 10/06/2009).

Por incrível que pareça, o eixo do discurso oficial sobre a ocupação da USP pela Polícia Militar é uma ordem judicial, expedida in limine. A inépcia política atinge, então, até o monólogo que cerca a aguda incapacidade de diálogo das autoridades com os manifestantes. Surpreende, também, o repentino patrimonialismo de atores que têm consentido na dilapidação paulatina da universidade pública, mesclado a um desprezo rancoroso por qualquer tipo de insurgência – manifestar-se seria anacrônico, ridículo, pueril. Logo, sem vontade ou talento para construir outra cultura política, de todo desprovidos de aptidão para dissensos, diferenças e conflitos, agentes públicos recorrem ao que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem: eliminar o conflito, humilhando quem dele discorda. O campus se torna, então, um microcosmo da violência e da ausência de comunicação que grassam no mundo. Ora, não há porta de vidro ou armário que valha um fio de cabelo ou a voz de um estudante, não importando a que grupo ou partido ele pertença. Em nossa cultura, porém, bater em pobres e militantes é esporte institucional – e quem apanha é porque “provocou e mereceu”. Em resumo, vão-se os militares, ficam os dedos. Mas quando esta liminar for legitimamente cassada (e se direito existe ela o será, sobretudo diante da cabal prova de que a Polícia Militar não sabe se portar num campus universitário) qual será o eixo do debate sobre a violência na USP? (Deisy Ventura, 10/06/2009).

A deslegitimação da política e o estranhamento do mundo

A deslegitimação da política e o estranhamento do mundo

“A criminalização dos movimentos sociais opera um movimento de deslegitimação dos sujeitos coletivos. Ao chamar o MST de criminoso, está-se a dizer que sua atividade, ou pior, o seu ser coincide com um crime. O reconhecimento do direito à terra como um direito humano e a reforma agrária deixam de ser propostas políticas para se tornarem associações à criminalidade. A análise é de Roberto Efrem Filho.”

Leia na íntegra aqui.

Duas perdas irreparáveis: Miguel Pressburger e Américo Plá Rodriguez

pescado do Blog do Fragale

“Duas perdas irreparáveis: Miguel Pressburger e Américo Plá Rodriguez

No último dia 13.07.2008, o Direito ficou um pouco mais pobre com o desaparecimento de Miguel Pressburger, depois de um longo período de hospitalização. Muito da história das transformações do ensino jurídico havidas ao longo dos anos 80 do século passado perdem uma importante referência, que nunca deixou de pensar e colaborar em diferentes projetos de solidariedade e mudança social. Apesar de sua importância, poucos registraram seu falecimento. Além de uma nota de pesar emitida pela Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do Estado da Bahia (que, infelizmente, não está disponibilizada na internet), apenas a Comissão Pastoral da Terra deu a notícia. Pouco mais de uma semana depois, outra perda irreparável ocorreu com o falecimento de Américo Plá Rodriguez, cuja obra é uma referência clássica para aqueles que militam na área do Direito do Trabalho. Dessa vez, a moção de pesar veio da Associação Latino-Americana de Juízes do Trabalho, cujo conteúdo pode ser acessado no Consultor Jurídico. Definitivamente, o Direito ficou mais pobre…”

Quando julgaremos nossos torturadores?

Texto de Deisy Ventura
pescado do Blog do PPG Direito

“Quando julgaremos nossos torturadores?

Acompanho com indignação, mas sem surpresa, a repercussão da audiência pública organizada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em Brasília, no dia 31 de julho, sobre a eventual responsabilização dos agentes públicos que promoveram torturas e execuções durante a ditadura militar brasileira. Eu tive a fortuna de estar lá, pois tocou-me, ao lado da brilhante Flávia Piovesan (PUC-SP), a honra de tratar da dimensão jurídica internacional do tema. Em breve, o valioso aporte técnico e político gerado pela audiência será publicado, mas, por ora, quero apenas convocá-los ao debate, e tentar desfazer algumas maldades.

Primeiramente, não há estulto que não reclame: ”e os crimes praticados pelos guerrilheiros”? “também lhes será revogada a anistia”? As inocentes perguntas apenas preparam a verdadeira objeção: “… afinal, há ex-guerrilheiros neste governo” ! Vejam que coincidência: o General Luciano Benjamín Menéndez, aos 81 anos, condenado à prisão perpétua no lindo dia 24 de julho último, em Córdoba, admitiu as execuções e torturas de quase um terço dos desaparecidos argentinos, e as justificou porque as vítimas, “inimigas da Constituição”, “negavam a Deus, trocavam a paz interior pelo conflito, e apontavam à dissolução da família e da propriedade”, para em seguida concluir sua defesa aos brados: “que detenhamos a marcha ao abismo a que nos conduzem estes guerrilheiros que hoje estão no poder” !

No entanto, ultrapassando a mordaz intenção política da pergunta besta, cabe a nós uma simples elucidação técnica. O Estado detém o monopólio da violência legal. Os guerrilheiros não se valeram dele. Ao contrário, queriam subverter a ordem. Esta intenção caracteriza o crime político, passível de anistia. Já os agentes públicos que mataram e torturaram valeram-se de meios, inclusive de informação, exclusivos do Estado. Norma alguma dava guarida jurídica às violações de direitos humanos. Trata-se de crimes comuns, agravados pelo abuso de poder. Ainda mais grave: houve a prática sistemática de violações direcionadas a um extrato demarcado de seres humanos. Esta é a definição dos crimes contra a humanidade, que são imprescritíveis. Para julgá-los, ademais da jurisdição nacional, há a jurisdição penal internacional e, sobretudo, a jurisdição penal nacional universal. Por isto, diversos processos já tramitam contra torturadores brasileiros no exterior. Que vergonha se não os julgarmos antes !

O Estado brasileiro tem admitido a responsabilidade pelos danos causados às vitimas do autoritarismo, graças ao labor incansável desta brava Comissão de Anistia, amiúde massacrada por uma imprensa irresponsável e hostil, além de constantemente atingida pelo fogo amigo de organizações sociais inconformadas com seus limites. Presidida pelo jovem jurista Paulo Abrão, a Comissão teve a imensa coragem de girar a moeda. Busca agora identificar mecanismos legais capazes de aferir a responsabilidade de servidores públicos, de carne e osso, nas violações de direitos cuja reparação tem sido suportada pelo etéreo Estado. Para tanto, reuniu, além de altas autoridades do Executivo e membros do Judiciário, especialistas de diversas áreas das ciências sociais, e particularmente do Direito, a fim de auxiliar atores políticos, lideranças sociais e representantes de vítimas na discussão das possibilidades atuais de resgatar nossa memória e combater a impunidade.

Trata-se de um debate imprescindível para o nosso futuro, mas o governo está dividido e a população segue desinformada. Neste tema, como de resto em quase todos os assuntos do Estado, os juristas desfrutam de um lugar privilegiado. É para isto que estudamos, não é mesmo? Para abocanhar esta realidade e fazê-la melhor. Pensemos no melhor modo de julgar as condutas que não desejamos ver repetidas. Espero vocês por aqui. (D.V., SP, 02/08/2008)”


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I Encontro Gaúcho de Assessorias Populares que será realizado no assentamento Sepe Tiarajú, na cidade de Viamão, entre os dias 16 e 18 de dezembro.

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